No dia 28 de fevereiro de 2008, Salvador presenciou a fúria da natureza quando uma frente fria atacou a cidade e derrubou o esperado de quatro meses de chuva em apenas uma noite. Eu estava em uma aula na pós-graduação (do prof. José Maria) e Sérgio me deu uma carona para casa. Ele escreveu um relato hilário sobre o que aconteceu conosco. Mas advirto os meus leitores: o que aconteceu foi pior do que está relatado.
Por Sérgio Simões:
Noite de 28 de fevereiro de 2008. Noite fria. Assim como foi a aula de SOA. Na saída, combinei dar uma carona para meus colegas de pós-graduação, Alexandre e Leo. Mal sabíamos a aventura que nos aguardava...
22:20 - Entramos pela sinaleira do Itaigara. A chuva não pára e o nível da água já assusta. Engato a segunda e acelero, rezando para a fama do Celta de não parar com qualquer água ser verdadeira.
22:29 - Passamos pelo primeiro obstáculo. Chegamos ao Hiper Posto para subir para Brotas. De repente, um pensamento sombrio me gela a espinha. "Se o Itaigara já estava assim, então deve estar descendo muita água da parte alta da cidade".
22:32 - Subimos por uma ladeira secundária para Brotas que mais lembrava uma corredeira. A força da água faz a subida ser mais difícil, mas o Celta vai dando conta do recado. Minha espinha agora parece uma geladeira...
22:38 - O alto de Brotas está completamente inundado. Olho para Alexandre e noto que ele está tão apreensivo quanto eu. O vidro do carro começa a embaçar e a visibilidade é ruim. Tenho de desligar o ar-condicionado várias vezes, pois o motor começa a falhar. A tempéstade se aproxima e estamos indo direto para o seu coração...
22:45 - Alexandre indica um atalho que nos leva para o Bonocô. Ao passar, vemos diversos carros parados e me pergunto se daqui a pouco não seremos mais um deles. Iniciamos a descida da ladeira, que agora é uma verdadeira queda d´agua.
22:50 - A descida para o Bonocô é um caos. Não se sabe mais o que é rua, passeio, buraco. Nessa loucura, sigo apenas os meus instintos. No banco de trás, vejo Léo com os olhos arregalados, abraçando as próprias pernas. Do meu lado, Alexandre começa a rezar baixinho. As "ondas" batem fortes a boreste (sim, agora meu carro passou de veículo terrestre para marítimo em 10 minutos). Seguro firme o leme e navego do jeito que dá.
23:00 - Chegamos ao Bonocô. Lá, a força da água faz com que todos os carros parem para esperar a chuva passar. Falo para meus companheiros: "calma galera, agora vamos sair dessa". Mal termino a frase e uma onda bate forte do lado do Celta. Agora nosso barco virou um submarino. Pelo vidro fechado vemos o flutuar de pneus, lixo e dois rubro-negros afogados, provavelmente pegos de surpresa pela enxurrada. Pobres diabos !
23:10 - O ar está acabando. Tento raciocinar direito enquanto ouço Léo dizer algumas palavras incompreensíveis no banco do fundo. Algo como "eu mato Zé Maria", ou algo parecido. Nessa quase escuridão, Alexandre escreve uma carta de despedida prá Rosinha. O moral da tropa está péssimo. É quando noto que a água converge rapidamente para um mesmo ponto da rua. Dou a partida no motor (sim, descobri que o motor do Celta funciona submerso) e arranco para essa direção. O problema é fazer isso sem um periscópio.
23:15 - Finalmente emergimos à superfície. Olhares curiosos de alguns sobreviventes se perguntam de onde viemos. Nesse momento, vejo a ladeira que nos levaria para o Vale das Flores. Vejo nossa salvação. Antes disso, porém, vemos um jipe Troller e uma Hilux com dificuldades. Nos olhamos os 3 e, sem dizer uma só palavra, damos meia-volta para ajudar. Amarramos nossas camisas umas as outras e improvisamos uma corda.
23:30 - Um troller, 3 hilux e um ônibus depois, decidmos seguir em frente. Os donos dos veículos
socorridos se despedem de nós, com um ar meio agradecido, meio envergonhado ("é sério, fui rebocado por um Celta ?", dizia um deles). Eles tentam agradecer nos dando umas notas molhadas, mas decidimos não aceitar ("nesse novo mundo sub-aquático, o dinheiro não tem qualquer valor", teria dito Léo, ainda em transe).
23:35 - Chegamos ao Vale das Flores. Na porta do prédio de Alexandre, encontramos Rosinha com uma vela e um terço nas mãos, totalmente vestida de preto, já esperando pelo pior. Ao ver Alexandre, ela fala "Ô, meu neguinho, siga a luz, siga a luz...". Demorou, mas ela se recobrou e entendeu que seu recém-marido estava vivo, são e salvo (apesar de um pouco assustado, muito sujo, sem camisa e com a barriga branca e protuberante à mostra). Beijos, abraços, e línguas são interrompidos quando pigarreio "aham", para lembrá-los que estavamo no meio da rua. Deixo os dois pombinhos e decido seguir meu caminho.
00:00 - Pouco tempo depois, termino minha missão. Deixo Léo na antiga passarela do Iguatemi (agora "ponte do Iguatemi"), para que ele vá para sua casa, em Feira de Santana. Horas depois eu descobri que a cidade de Feira já não mais existia, submersa por tsunamis causados pelas fortes chuvas. Isso com certeza o influenciou a seguir na marinha mercante, anos mais tarde.
Então é isso amigos. Fiz esse relato com todas as minhas memórias, antes que o tempo as consuma. Espero que o sacrifício desses 3 verdadeiros heróis não seja esquecido. 28 de fevereiro. O dia em que Salvador foi inundada...